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Sá de Miranda

"
Sonetos Portugueses"

1 - Foi Sá de Miranda, (Francisco Sá de Miranda), 
nascido em Coimbra em 1485 e falecido no Minho, 
em 1558 o introdutor do soneto em Portugal. 
Depois de uma viagem à Itália, tal como aconteceu 
com Juan Boscan, na Espanha, voltou trazendo as 
novidades literárias do Renascimento.
Sá de Miranda é por isso considerado o iniciador do
renascimento português, cujo vulto extraordinário foi
o poeta genial de "Os Lusíadas", Luiz de Camões.
Ao voltar de sua demorada viagem, Sá de Miranda,
não apenas fez ressurgir o culto das boas letras, os
moldes tradicionais da poesia portuguesa, mas intro-
duziu todas as novidades literárias italianas: o soneto
e a canção à maneira de Petrarca, o verso decassilá-
bico, os tercetos de Dante, enlaçados; a oitava rima
de Policiano, Bocacio e Ariosto.
Vale a pena, para deleite do leitor, já que não inclui-
remos sonetos de Sá de Miranda no corpo do volume,
dada a sua forma quinhentista, reproduzir aqui, como
nota pitoresca e de cultura, um dos seus belos sonetos.
Este, por exemplo:

SONETO 

Quando eu, Senhora, em vós os olhos ponho, 
e vejo o que não vi nunca, nem cri 
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si 
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passa de, quando me disponho, 
e me quero afirmar se foi assi, 
pasmado e duvidoso do que vi 
me espanto às vezes, outras me avergonho.

Que, tornando ante vós, Senhora, tal, 
quando me era mister tanta outra ajuda, 
de que me valerei se alma não val?

Esperando por ela que me acuda, 
e não me acode, e está cuidando em al, 
afronta o coração, a língua é muda.

Companheiro de Sá de Miranda, foi Antonio Ferre-
ira (Lisboa, 1528-1569) cujos sonetos estão incluídos
nesta coletânea.
A Renascença literária se deu em Portugal na época
dos grandes descobrimentos, em que reinava "o ven-
turoso", D. Manuel, que foi um protetor das letras, e
também poeta.
E a partir daí está inoculado no ardente espírito por-
tugues o germem do soneto. Portugal daria grandes
cultores da mais bela forma fixa da poesia: depois de
Camões, o maior deles, Bocage, Antero de Quental,
Florbela Espanca, para citarmos os que deixaram 
melhor obra no gênero.

2 - A seleção de sonetos para esta coletânea foi feita 
principalmente de antologias e outras seleções por-
tuguesas. Não chegam até nós, se não esporádica-
mente, os livros dos poetas portugueses. Tirando os 
clássicos, nossos velhos conhecidos, desde as anto-
logias didáticas,e os maiores, Fernando Pessoa, Flor-
bela Espanca, Anthero de Quental, poucos atravessam
o Atlântico.
Positivamente não sei qual tem sido o resultado das 
visitas recíprocas de Presidentes da República, o tra-
balho das embaixadas, do Itamaraty ou do Ministério
do Exterior de Portugal. Há barreiras pesando sobre
os livros portugueses que chegam ao Brasil, e os bra-
sileiros que são levados para Portugal. Por quê? Não
basta afirmarmos em discursos, nas festas e recepções, 
nas vistas solenes e importantes, que somos uma gran-
de comunidade étnica e espiritual. Dois povos que não
se conhecem não podem se amar, e os livros são a gran-
de e indispensável ponte que se deve construir sobre o 
Atlântico, para que nossos povos realmente se encon-
trem com o coração e com o espírito.
Ambos os governos deviam isentar de qualquer taxa ou
imposto a entrada de livros nos dois países. Os livros 
portugueses, no Brasil, não custam cruzeiros nem escudos, 
custam dólares. Sinal dos tempos.

3 - De um modo geral a poesia portuguesa pode ser lida, 
diretamente, pelo leitor brasileiro. Mas as diferenciações
naturais dos dois idiomas, distantes e sujeitos a influências
e misturas diversas através dos tempos, tornam difícil a 
aceitação de muitas obras. Verifiquei isto quando selecio-
nava os sonetos portugueses. Alguns, tive vontade de 
"traduzí-los" para que o nosso leitor não deixasse de conhecer
uma bela- página literária. Mas há dificuldades invencíveis, 
às vezes. Observem, por exemplo, o emprego da palavra 
esperança cuja prosódia diversifica totalmente seu emprego,
no Brasil e em Portugal. Vejam um exemplo: este soneto 
de Eugênio de Castro, que não me furto de transcrever aqui, 
mas cujo final exigiria talvez uma adaptação para a nossa língua
portuguesa do Brasil:

SONETO

Tua frieza aumenta o meu desejo: 
fecho os meus olhos para te esquecer, 
mas quanto mais procuro não te ver, 
quanto mais fecho os olhos mais de vejo.

Humildemente atrás de ti rastejo, 
humildemente, sem te convencer, 
enquanto sinto para mim crescer 
dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te, sei 
que outro feliz, ditoso como um rei 
enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa: 
amam metade os que amam com espr'ança,
amar sem espr'ança é o verdadeiro amor.

Uma pena, portanto. Ninguém no Brasil lerá 
ou dirá esta espr'ança, e com isto, desmorona toda 
a beleza  do soneto. O jeito talvez fosse uma pequena 
adaptação, embora com perda de alguma substância poética:

Meu coração no entanto não se cansa: 
ama metade o amor com esperança, 
sem esperança, é o verdadeiro amor.

4 - Não pretendo me alongar em comentários sobre os 
poetas portugueses aqui incluídos. Dos antigos, dos 
clássicos, os grandes sonetistas foram Camões, Bocage, 
Quental; dos novos: Florbela Espanca, Virgínia Vitorino 
e Maria Helena, três poetisas, portanto, ou como preferem 
os portugueses: três mulheres poetas. 
Mas gostaria de dizer duas palavras sobre esta última poetisa, 
Maria Helena, com quem tenho publicados dois livros 
- Concerto a 4 mãos, e De mãos dadas - e que considero a voz 
feminina mais expressiva do lirismo português contemporâneo.
Trata-se, sem nenhum favor, de uma grande poetisa,
cujos sonetos se situam no mesmo plano dos de
Quental ou de Florbela Espanca. E quem tiver dúvidas
que leia: "E a carne se fez verbo", uma coletânea
contendo 111 primorosos sonetos.
Entretanto, dá-se com esta escritora um fato interessante: 
não encontro seu nome e sua obra nas antologias 
e coletâneas portuguesas.
José Regis e Cabral do Nascimento não se lembraram dela 
nas "Líricas Portuguesas", 1a e 2a séries, excluíram a grande 
poetisa, e enquanto isto, incluíram-se a si mesmos, injustificadamente,
 já que pela mostra apresentada, são poetas inexpressivos.

Uma outra antologia com o título de "Antologia das 
Mulheres Poetas Portuguesas", de Antonio Salvado, 
com maiores e evidentes razões não poderia deixar à 
margem Maria Helena. Pois foi exatamente o que 
aconteceu. E lá estão na coletânea alguns nomes, 
firmando poesia sem maior importância.
Por que? Quais serão as razões? Um critério 
evidentemente mesquinho e injustificável. Trata-se de 
uma grosseira chantagem intelectual com o leitor 
desavisado, que, ao comprar o livro admite levar uma
coletânea do que há de melhor nas letras de seu país, e
leva muitas vezes uma verdadeira "ação entre amigos" 
mascarada com título falso e pomposo.
Enfim, no Brasil a coisa é mais ou menos parecida. No 
Brasil, em Portugal, na Inglaterra, em toda parte, hoje e 
sempre.

5 - Lealmente devo confessar que a minha preocupação 
em apresentar uma mostra, a mais ampla, dos sonetistas 
portugueses, levou-me à inclusão de alguns trabalhos, 
que, talvez, submetidos a um critério mais rigoroso 
aqui não figurariam.
No Brasil temos uma quantidade bem maior de poetas 
que se utilizaram do soneto. Grandes, médios e 
pequenos poetas, em todos os tempos e escolas o 
cultivaram. .
Na seleção dos sonetos portugueses encontrei, por 
vezes, maiores dificuldades. Primeiro, porque não 
dispomos no Brasil das edições portuguesas, a não ser 
dos autores consagrados, os chamados "clássicos"; 
segundo, porque, realmente, os poetas portugueses, 
parece, não se encontram tão à vontade dentro do 
exíguo espaço dos quatorze versos. Não conseguem 
aquela espontaneidade, aquela naturalidade dos poetas 
brasileiros. Seus sonetos parecem trabalhados, 
"sofridos". Refiro-me certamente ao geral dos poetas, 
não aos seus grandes sonetistas, de um Camões a uma 
Maria Helena.
Figuram, inclusive, nesta coletânea sonetos de poetas
modernos portugueses e da nova e novíssima gera-
ções. Assim é que, muitos destes sonetos, não obe-
decem rigorosamente às regas petarqueanas no que
diz respeito à disposição dos versos, às rimas, e as 
vezes, até mesmo à métrica apresentando certas liber-
dades nem sempre justificáveis. Observem, por
exemplo, os belos "Sonetos de Álvaro Feijó. Que
acham?
Quando o leitor estranhar, procure a nota bio-biblio-
gráfica sobre o autor e verificará que se trata de um
poeta do modernismo ou da geração novíssima.
Eu, por mim, não concordo totalmente com esse critério. 
Penso que os poetas que não desejam se sujei-
tar às regras do soneto, - forma fixa e tradicional da
poesia - que não puderem ou não souberem manejá-
lo, devem realizar-se, dentro do conceito moderno de
"forma inata", isto é, criando cada poema com a sua
própria forma, e assim é preferível que se libertem
de uma vez, a "perpetrarem" sonetos com deforma-
ções, ou imperfeições.
Fiz, entretanto, questão de incluir alguns desses tra-
balhos, para que o leitor, inclusive, tenha uma idéia
do lirismo português mais recente, e de como o soneto 
sofre, na própria carne, a ação das concepções e do 
espírito novo, mantendo-se de pé, sobrevivendo eterno.

in
" Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
  J.G . de  Araujo Jorge - Vol. II - 1a ed.   1966

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