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" Poesia Africana "

        
            Tão pouco sabemos sobre nossos irmãos portugueses da África.
    Ainda recentemente, uma inteligente leitora de Benguela, com quem me correspondo, Ana Maria Coelho, jornalista e poetisa, observava de modo pitoresco:                                                                                                         
         “De Angola é uma pena: dir-se-ia que seus poetas não sabem cantar outra coisa que não seja a meninice, as figuras que se habituaram a ver, o capim, as mulatas”.
      Afinal, por que o tom restritivo? Os poetas angolanos utilizam-se praticamente de todos os temas: a meninice (a infância); as figuras que se habituaram a ver (o seu mundo ao redor); o capim (a paisagem); as mulatas (a mulher o amor). Encontrei ainda, em sua poesia, aquele sopro literário e social que é uma característica do espírito de todo continente negro, rompendo seus grilhões colonialistas.                
    No volume I I da minha antologia
“Os mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou” (poesia universal), incluí uns poucos poetas de Angola e Moçambique, fixando a face lírica da poesia africana.     Pena é que seus poetas não se sirvam muito da velha e eterna forma clássica da poesia: o soneto. O que é natural.                                     
    Para seu canto novo, impregnado de ânsias nativistas, teriam que preferir os versos livres, polimétricos. O soneto - pequena taça - parece feito para os momentos felizes, tranqüilos, para os brindes de puro amor. Nas horas duras, nos momentos difíceis de ânsias e revoltas, de apelos e esperanças coletivas, quando
a alma jorra  em torrentes, o canto  tem  que  ser amplo, profundo, e os poetas se desdobram e mudam o tom, são dramáticos, são épicos.                                           
    Muito raramente, infelizmente, chegam até nós as ressonâncias literária do continente negro. Apenas os ecos de lutas políticas e de libertação, sangrentas, mas que atestam a fermentação intelectual de seus jovens povos. Não há luta para a liberdade sem lideranças e não há lideranças, no sentido moderno, sem desenvolvimento intelectual. E, nas suas lutas - a África vem confirmando mais uma vez, - os poetas têm função de vanguarda. Aí estão dois nomes, dois símbolos: Lumumba e Senghor.
    Sem estar propriamente engajada na luta anti-colonista, nem por isso a África portuguesa deixa de refletir, principalmente através dos seus poetas negros, os ideais de libertação de todo o continente. Alfredo Margarido, em

“20 Poemas com estribilho Cabinda”, reaviva o quadro:
“Eles desembarcaram a centenas de anos
vindos do grande mar opressor, e criaram
as cidades densas e populosas onde meus irmãos
trabalham nas docas, nas casas, nas oficinas
nos escritórios, onde o canto sombrio das ondas
propõe um coro de danças entre reco-recos e tambores.”

    Alda Lara, sem livro publicado, recentemente falecida, uma das vozes mais fortes do lirismo ultramarinho, não foge ao culto à mãe-África. Tendo vivido algum tempo em Lisboa, confessa ao retornar:

“Terra! Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo
puro e livre,
me levanto
ao aceno do teu povo!”

    Outra poetisa, Amélia Veiga, autora de “Destinos” e “Poemas”, com lindos versos de amor:
“Tocar-te
seria pouco para a minha fome.
Despi-me de solidões e fiquei nua,
pura como a lua
para a noite longa
das revelações...”

Ela também recebe no rosto as lufadas fortes do
“Vento da Liberdade”:
   
“Das entranhas da terra
irrompe um vento alucinado
que varre... varre... varre...
as folhas secas do mundo...”

    Eduardo Teófilo, no Primeiro Livro das Horas, em Hora da Luta, está alerta
“Há galos esperando para cantar o dia
quando a madrugada chegar.”

    Antônio Jacinto, poeta negro, de quem recebi há anos uma linda carta, solidária com o meu Estrela da Terra e cuja resposta incluí em Harpa Submersa, toma posição em seu Canto Interior de uma Noite Fantástica:

“Sereno, mas resoluto
aqui estou - eu mesmo! - gritando desvairado
que há um fim por que luto
e que me impede de passar ao outro lado.”

    E, do seu lado, encontra-se também A. Cardoso, num canto viril:

“É inútil mesmo chorar
se choramos aceitamos,
e é preciso não aceitar.”
    Mas o amor - tema universal, o mais velho e o mais difícil - está presente nos poetas negros ou brancos da África portuguesa. Tomás Jorge, filho de Tomás Vieira da Cruz,
“o maior poeta angolano”, amacia a voz:                                        

Hoje não trago nada para dizer,
sossega o teu rosto no meu peito
repousa em mim tua tristeza.”

Orlando de Albuquerque, entre tantas reminiscências da infância em Lourenço Marques, em cidade do Índico, diz com graça extrema:

“Um dia ela me disse:
põe aqui tua mão!
Eu pus e senti uma beleza rija,
um seio de mulher...

Foi desde aí
que minhas mãos ganharam este jeito em concha
de afagar...” (“Iniciação”)

    E encerrarei esta mostra rapidíssima da poesia africana com citações de dois grandes poetas, um de Angola, branco, Tomás Vieira da Cruz, que recebeu em 1938 o título de Príncipe dos Poetas Portugueses; outro, negro, de Moçambique, Rui Noronha, considerado o precursor da poesia moderna em sua pátria. Do primeiro, uma simples trovinha, que corre de boca em boca:

“Os teus defeitos são graças
que mais me prendem, querida,
mistério de duas raças
que se encontraram na vida...”

    Do segundo, o final de um belo soneto, Grito de Alma, retirado do seu livro Sonetos, onde invectiva ou lamenta o seu amor branco:

“Cruel destino o meu que ao meu destino trouxe
na fulgurante luz do teu olhar tão doce
a mágoa minha, eterna, a minha eterna dor.

Vai, segue o teu destino. A onda quere-te e passa...
Vai com ela cantar o orgulho de tua raça
que eu ficarei cantando o nosso eterno amor...”

    As poesias sem indicação bibliográfica foram retiradas na Antologia Poética Angolana, de Garibaldino de Andrade e Leonel Cosme, Coleção Imbondeiro, edições de Sá da Bandeira, Angola, África Ocidental Portuguesa, e dos suplementos literários Artes e Letras, do jornal ABC-Diário de Angola.

         

( Crônicas  de JG de Araujo Jorge extraído do livro
" No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )

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